1º. SIMPÓSIO DE GRANITO DE MONDIM DE BASTO

FBAUP

Incorro no risco de ser tomado como aproveitador do momento mundial que se liga à celebração dos 50 anos da ida à Lua, aproveitando aqui essa referência de modo aparentemente gratuito, para refletir sobre o 1º. Simpósio de Granito de Mondim de Basto. 

Foi em 20 de julho nos Estados Unidos da América, mas já manhã de 21 de julho de 1969 em Portugal, que a realidade mudaria para todo o sempre. A célebre frase proferida pelo astronauta Norte Americano, Neil Armstrong: “É um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade” não mais saiu da nossa memória coletiva, como apanágio de toda a singularidade dos grandes feitos da nossa era. Que importará colocar tudo isto em causa? Ida ou não ida, eis a questão… Contudo, a realidade de aparecer em direto na TV inaugura, contrariamente às grandes possibilidades de significados para a humanidade, da Lua como símbolo do inatingível celeste, a possibilidade do Homem conquistar o universo, tal como se entretém a pensar que conquistou os Himalaias ou o Polo Sul, onde narizes à macaco narigudo, falta de dedos e mortes heroicas provam, se não o contrário, pelo menos as nossas fragilidades humanas perante estes desafios terrestres. 

Neste processo pouco direto de escrever sobre o assunto em questão, terei de assumir, também, uma falha cultural. Aquando deleitado com a revisão do filme de Cyrano de Bergerac de 1990, realizado por Jean-Paul Rappeneau e baseado na peça de teatro homônima de 1897 de Edmond Rostand, o personagem, interpretado pelo ator Gérard Depardieu, refere que Molière, reconhecido dramaturgo francês, se apropriou de parte da obra por ele escrita, intitulada La Mort d’ Agrippine, de 1654. Esta referência alertou-me para a verificação sobre a realidade do próprio Cyrano de Bergerac e descobrir que, como autor escritor, publicou um texto sobre a possibilidade de o homem ir à Lua. Um texto de imaginação, o qual me entretenho a ler nestas últimas semanas, descobrindo que o homem em todas as épocas tenta explicar o mundo e sonha ir mais longe que a sua condição e realidade. No livro que em português se intitula o Outro Mundo, publicado pela Tertúlia do Livro, em 1971, traduzido do original L’Autre Monde, engloba o texto Histoire comique des Estats et empires de la Lune (História Cómica dos estados e impérios da Lua) e  Histoire comique des Estats et empires du Soleil ("História Cómica dos Estados e Impérios do Sol"). Nestes escritos Cyrano de Bergerac faz o exercício de pensar ao contrário ou de contrariar o pensamento mais generalizado, para poder forçar os limites das regras que nos constrangem, qualquer que seja a época; os dogmas que se nos impõem ou auto impomos a nós próprios; as fronteiras onde, antes de mais, amarramos o pensamento coletivo para que os corpos não persigam a liberdade, que não permitiria o controlo mais básico de uns sobre os outros. Num capítulo singelo refere-se à possibilidade de governo pelos mais novos, invés dos mais velhos, os filhos a terem autoridade sobre os pais a partir da idade da razão. Escreve na página 81:” … Não será um jovem vibrante no poder de imaginar, de julgar e executar, mais capaz de chefiar uma família do que um sexagenário doente, um pobre entorpecido a quem a neve de sessenta invernos gelou a imaginação, não se conduzindo senão pelo que chamais experiência dos sucessos felizes, que não passam porém de meros efeitos do acaso contra todas as regras da economia da prudência humana? Discernimento tem também muito pouco, embora o vulgo do vosso mundo dele faça um apanágio da velhice. Para o desenganar é preciso fazer-lhe ver aquilo a que num velho se chama prudência não passa de ser uma apreensão pânica, um medo enraivecido de nada empreender, que o obsidia. Assim, quando não se arriscou num perigo no qual um jovem se perdeu não foi porque previsse a catástrofe mas porque não possuía o fogo suficiente para acender os nobres impulsos que nos fazem ousar, enquanto que a audácia do jovem é como um penhor do sucesso do seu desígnio porquanto o ardor que origina a prontidão e mesmo facilidade de execução, é o que o leva a empreender.” 

E posto isto questiono-me se, para mim, não terá sido Mondim como uma viagem à Lua? Um empreendimento colossal, que acaba num pequeno passo para o Homem e num salto gigantesco para o professor. Argonauta da educação que tenho sido nos últimos vinte anos, ainda me deparado com o escuro da viagem sempre em ascensão, na incerta direção ao estudante qual astro móvel. Deparado com a palpável aridez lunar que o terreno de comunicação com as novas gerações sempre prefigura. Porque afinal, uns ainda voam à conta de frascos com orvalho aerífico montados manualmente e com as incertezas dos sonhos e, os outros, já se elevam no ar com a facilidade e certeza de teorias científicas baseadas no enter and go. Porque então se abalará o mundo dos mais velhos numa justa cogitação pessoal, refletindo sobre o que tem para ensinar e a possibilidade de isso não ter qualquer valia, quando dirigido para quem não pode olhar de outro modo a realidade, que não através do enviesamento da sua novice que, no fundo, todos queremos muito celebrar. 

Cyrano terá ainda hoje toda a razão, apesar de eu estar longe de gelado da imaginação e eles, estes a quem me dirijo em louca viagem, longe de se ousarem empreender sem um contexto de encontro que este 1º. Simpósio de Granito de Mondim de Basto tentou organizar. 

Organizar o tempo amplo do desencontro que pode originar, no final da curva do espaço, o outro lado do universo. A evolução dos dois opostos pela proximidade e possibilidade de existência em comum e comunicante no tempo e no espaço. Se o acordo será sempre difícil, o respeito constituirá o portal quântico que resulta no mecanismo de viagem. Aquele que nos levará mais rapidamente próximo da compreensão das idiossincrasias de cada um, nas suas condições específicas. Aquelas dos que já vão dependendo das calcificações assertivas que impedem qualquer brusca guinada, e aquelas dos que em leveza etérea, rodopiam no maravilhoso baile das mil máscaras, ainda no entrudo de si. Que mal terá dar-lhes o governo? Que empecilhado pensamento faz fugir da responsabilidade de lutar sob a sua autoridade? Quem virá destas pedernias e matagais dizer-lhes que o futuro se adie? Quem com pedra será capaz de escrever o que eles disseram, fizeram e amaram, se não eles próprios? Pelo seu punho. Pela sua caligrafia. Pelo seu modo de dizer. Fraco? Ilegível? Codificado? Para além do que nós concebemos, conhecemos, respeitamos? Quem disse que a margem do mundo deles coincide com a nossa condição, sendo que somos sempre seres fronteiriços de nós próprios? 

Mondim, para mim, foi efetivamente como uma viagem à Lua, pelo menos do modo como Cyrano a descreve. Um grande encontro de novo. Uma vez a seguir à outra, repetindo o gosto de estar, até à amizade profunda. Sempre como da primeira vez, como numa paixão. Estive preso nas lógicas de demónios que me fizeram andar de quatro, e depois, erguido apenas em duas, para sua satisfação, nesse gozo que têm pelo espetáculo de mim e das magias que ainda sou capaz de fazer, como todos os da minha espécie. Daqueles que vem do meu mundo, que para vós será já e apenas uma Lua distante, de onde não existem relatos dos seus campos e das suas quimeras. Das suas histórias e dos seus heróis. Pena será que a este sol, o da vossa realidade, a minha existência queima e tisna, encarquilho-me e sou imediatamente muito velho. Sinto ceder a minha resistência de estar nesta vossa atmosfera. Estarei prestes a partir alguns dos frascos de orvalho que secretamente mantive presos a mim, para poder erguer-me de novo no ar e voltar caindo à minha terra distante. À vossa Lua. Terei chegado aqui na voluntariedade de ensinar, encontrando em vós os satélites naturais para o meu saber. Contar-vos novidades nunca antes vistas do meu mundo. Contudo agora, à distância que o voo de regresso provoca, um a pique incontrolável de volta a mim, encontro em vós os professores que eu, eterno aluno, teimarei em dar atenção. Olharei para cima, lá desse meu mundo, possivelmente do vértice do cone do monte Farinha, em Mondim, para me sentir mais próximo de vós e, sem nada mais dizer, saberei que Cyrano não é só uma personagem de ficção e este homem foi e veio à Lua.

António Rui Ferro Moutinho *

*Escultor, Professor Doutor, Docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

e investigador do Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade [i2ADS - FBAUP].

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